terça-feira, 12 de maio de 2009

O Homem Vidrado

Ele sempre quis ter certeza de que teria sua estátua de vidro consigo. Saudade não era parte de seu vocabulário, nem deveria ser incluída. Não era zelo ou coisa parecida, mas sim uma necessidade de observar aquela mulher sinuosa sobre o mármore gelado. Dizia ele que através dela o mundo parecia diferente... com variadas formas e cores. Seu prazer incomensurável... um deleite que só ele poderia explicar.

Por ter de se dividir entre Espanha e Inglaterra, mantinha uma estátua de vidro feminina em um lugar e outra noutro. Assim ele poderia admirar sua amada e ver o mundo através de sua lente. Sempre.

Sua suposta esperteza, porém, caiu por terra com o passar do tempo. Com tanto observar, ele criou um afeto especial por cada uma, de forma única. Percebeu que por mais parecidas que fossem, cada uma tinha seus ângulos sutilmente diferenciados. O que causava uma admiração e visão de mundo muito díspares.

Então começou a sentir saudade... e a estátua de vidro que ficava em Londres não satisfazia a falta que a estátua de Maiorca fazia. E o próprio vidro de suas mulheres começou a derreter, enciumado. Pois uma sabia da existência da outra.

E foi assim que ele perdeu a sua primeira estátua de vidro... liquefeita no chão da casa. Um horror! E a partir de então, buscava sempre uma estátua igual àquela... que o fazia ver o mundo como ela e só. Sem nunca entender que não haverá outra igual.

Nem de vidro, de gelo, ou real.


segunda-feira, 11 de maio de 2009

Soneto de Fidelidade, por Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.



quinta-feira, 23 de abril de 2009

Muitos passarinho, Outros passarão.


Em cada nova encruzilhada que enfrentamos, partimos. Deixamos para trás alguma parte de nós mesmos. Do coração, da mão ou do pulmão. Pouco importa de onde arrancamos esse nosso pequeno “eu”, mas sim que temos de deixá-lo lá.

A cada erro, a cada tropeço, temos a chance de um novo começo. Mas, para seguir em frente, o pé tem de se mover adiante. A pegada que fica no lodo que foi o passado eu já nem vejo mais. Toda dor que causei, todo mal que plantei, eu pedi perdão e entendi que não adianta insistir no sofrimento. Sofri junto, acalentei tantas noites de pesar... chorei em silêncio e em quietude guardei assombrações que só quem sentiu sabe como machuca. Mas passou. E eu vi pessoas pequenas darem passos de gigantes.

Elas também aprenderam que a marcha é dura, mas necessária.

Às vezes choramos nossos próprios erros achando que é a decepção com outros. E nunca encontramos nossa paz, porque não entendemos o que queremos deixar quieto. Como um quebra-cabeça ainda por fazer, somos atraídos a ele. Talvez por vaidade, por querer provar que podemos resolvê-lo. Mas não há mais o que fazer.

Vai, Pequena. Deixa em paz o que não é mais seu, apesar de ser parte de você. A borboleta também se desfaz de seu casulo pra poder voar. E assim seguimos o fluxo dessa louca vida... reproduzindo nossas idéias e sentimentos, por brotamento mesmo. E sem parar, nunca!

Para chegar ao futuro, é preciso livrar-se do passado, mesmo que às vezes eles pareçam se confundir. Vez ou outra nós é que nos confundimos, porque alguma maldita areia-movediça nos puxa ao abismo que é tudo pelo que já vivemos.

Se eu pudesse dizer alguma coisa, eu diria que guardasse suas belas poesias, amadurecesse a alma que é grande e caminhasse pra longe de toda essa sujeira.

domingo, 19 de abril de 2009

You hurt, you learn.

Buda pregava que o sofrimento é inevitável diante do apego ao mundo, às coisas materiais e só acabaria quando percebêssemos o caráter ilusório dele. Mas Carlos Drummond de Andrade cita que “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”. E não é?

Quando se é criança, é normal se machucar. Cair da bicicleta, ralar o joelho, dar com a cara no chão. Dói. Dói demais, e você deve se lembrar de vários tombos pela infância. Mas você pode escolher fazer um escândalo, fazer bico, uma manha... apesar de que logo passa, e você parte pra outra aventura.

À medida que o tempo passa, a dor muda de cena. São decepções em relacionamentos com amigos, pais, irmãos, amorosos... Talvez por esperar demais de alguém e acreditar que essa pessoa possa corresponder ao que nos é desejado, criamos expectativas que nem sempre são concretizadas. Culpa de quem? De ninguém, a história caminha assim mesmo. Por entre ilusões e atitudes concretas. Mas essa é a palavra chave: atitude.

É a atitude que determina se você opta pelo sofrimento ou não. Se você vai ficar se afundando e insistindo na sua decepção ou não.

Eu acreditei, por muito tempo, numa ilusão que eu mesma criei. E por gostar demais, me ofereci por inteira. Eu comecei a sofrer, por opção, há muito tempo. E acabei me desgastanto demais. Transpus barreiras, briguei com muita, muita gente que me alertava a cuidar mais de mim mesma, descuidei de muitas outras pessoas que me queriam bem, até mesmo família. Venci medos... acreditando que o sacrifício valeria a pena. Foi quando me decepcionei. Dei por mim e vi que da outra pessoa, eu mal tinha uma amizade. Nem sei quantas vezes ela ficou feliz por me ter por perto de verdade.

O sofrimento não me retornou quase nada. Nem sei se alguma vez retorna. Da minha paixão, retirei principalmente o que a palavra realmente significa. “Sofrimento”. Eu fui feliz concomitantemente ao tempo que sofri, mas foram lampejos de felicidade. Eu poderia ter escolhido ser feliz com momentos de dor.

O apego nos torna reféns de nós mesmos. E gostar de outra pessoa ou de outra coisa nos impõe um risco muito grande: de se sentir impotente, fraco. E tudo sai de nosso controle... Mas quando o sentimento é sincero, e você é leal consigo mesmo, não se deve arrepender de ter sofrido. E sim aprender que os sentimentos das pessoas fogem do nosso controle e infelizmente não podemos simplesmente buscá-los dentro de alguém. Nem seria justo. Eles devem ser ofertados... E se insistir faz efeito ou é apenas prolongar o sofrer, eu não sei. É como uma corrida de cavalos. Você aposta e fica apreensivo o tempo todo, mas pode acabar ganhando uma bolada de dinheiro. Talvez essa seja a sua atitude. Talvez desistir seja mais rápido,muito mais defensivo, mas menos rentável também. Cada um escolhe seu caminho.

Abra os olhos!


Meu irmão sempre me dizia: “o mal do ser humano é ser muito ambicioso. A gente nunca se contenta com o que tem.” Eu não posso concordar mais. Se temos uma boa casa, queremos uma ainda mais arrumada ou maior. Se temos um bom emprego, queremos sempre um cargo mais alto. Se temos alguém com perto, queremos alguém menos “defeituoso”. Entre o doce e o amargo, a ambição nos leva além, nos impulsiona a uma versão melhor de nós mesmos. Mas será que já temos o que precisamos... e só não valorizamos devidamente? 

Ambição ou ingratidão?

A velha história da “grama do vizinho ser mais verde do que a minha” me vem à cabeça várias e várias vezes. Ou talvez nem tenha um parâmetro de comparação como a grama do vizinho, mas as pessoas insistem em olhar pro seu próprio quintal por uma janela suja. E vêem tudo do lado de fora meio acizentado... Parece uma anorexia sentimental! Vê-se qualidades próprias, conquistas pessoais e relacionamentos com uma configuração deturpada. Logo, a própria vida do indivíduo soa diminuta, insatisfatória. Quando, na verdade, coisas boas o cercam o tempo todo. Mas ele não percebe, porque perde seu tempo olhando pro chão. E, por isso, ele almeja alguma coisa ainda mais grandiosa, sem se tocar de que algo maior esteve encarando-o o tempo todo. Ele só não viu.

É óbvio que a insatisfação nos encoraja a buscar uma evolução pessoal, mas nem sempre precisamos estar insatisfeitos, mas sim valorizar aquilo que já é nossa conquista, só que nem sempre demos tanto valor. Como uma cristaleira velha que esteve tanto tempo guardada, mas que ainda fica linda sobre a mesa de centro, ou quando perdemos um emprego e a agência retorna a chamar [e você não aceita! (é, eu já presenciei isso...)], ou uma pessoa que te valoriza demais e te quer bem, mas você a ignora.

Eu já vi muita gente reclamando que não tinha o que tinha. É como estar com o controle remoto na mão e, mesmo assim, procurar por ele loucamente na sala, na cozinha, no banheiro... e, por fim, descobrir que você esteve segurando-o o tempo todo! É uma pena, porém, que nem todo mundo venha a olhar pra própria mão e pensar: “ah, estive com ele o tempo todo, só não vi...”

Antes de se queixar de toda decepção e insatisfação na vida, presta atenção se o controle remoto não está na sua mão, pra não ser ingrato com o Destino. Acho que ele não gosta de gente ingrata... e joga isso na nossa cara mais tarde. Mas aí já é tarde demais, e talvez não tenhamos mais nem controle remoto, muito menos a televisão, e até mesmo o móvel onde a colocávamos. E nos lamentamos por ter perdido alguma coisa... mais uma vez!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

A Separação como um ato de amor, por Martha Medeiros

É SABIDA A DOR QUE ADVÉM DE qualquer separação, ainda mais da separação de duas pessoas que se amaram muito e que acreditaram um dia na eternidade deste sentimento. A dor-de-cotovelo corrói milhares de corações de segunda a domingo — principalmente aos domingos, quando quase nada nos distrai de nós mesmos — e a maioria das lágrimas que escorrem é de saudade e de vontade de rebobinar os dias, viver de novo as alegrias perdidas.


Acostumada com esta visão dramática da ruptura, foi com surpresa e encantamento que li uma descrição de separação que veio ao encontro do que penso sobre o assunto, e que é uma avaliação mais confortante, ao menos para aqueles que não se contentam em reprisar comportamentos padrões. Está no livro “Nas tuas mãos”, da portuguesa Inês Pedrosa.


“Provavelmente só se separam os que levam a infecção do outro até aos limites da autenticidade, os que têm coragem de se olhar nos olhos e descobrir que o amor de ontem merece mais do que o conforto dos hábitos e o conformismo da complementaridade.”


Ela continua:


“A separação pode ser o ato de absoluta e radical união, a ligação para a eternidade de dois seres que um dia se amaram demasiado para poderem amar-se de outra maneira, pequena e mansa, quase vegetal.”


Calou fundo em mim esta declaração, porque sempre considerei que a separação de duas pessoas precisa acontecer antes do esfacelamento do amor, antes de se iniciarem as brigas, antes da falta de respeito assumir o comando. É tão difícil a decisão de separar que vamos protelando, protelando, e nesta passagem de tempo se perdem as recordações mais belas e intensas. A mágoa vai ganhando espaço, uma mágoa que nem é pelo outro, mas por si mesmo, a mágoa de se reconhecer covarde. E então as discussões se intensificam e quando a separação vem, não há mais onde se segurar, o casal não tem mais vontade de se ver, de conversar, quer distância absoluta, e aí se configura o desastre: a sensação de que nada valeu. Esquece-se o que houve de bom entre os dois.


Se o que foi bom ainda está fresquinho na memória afetiva, é mais fácil transformar o casamento numa outra relação de amor, numa relação de afastamento parcial, não total. Se os dois percebem que estão caminhando para o fim, mas ainda não chegaram no momento crítico — o de se tornarem insuportavelmente amargos — talvez seja uma boa alternativa terminar antes de um confronto agressivo. Ganha-se tempo para reestruturar a vida e ainda se preserva a amizade e o carinho daquele que foi tão importante. Foi, não. Ainda é.


“Só nós dois sabemos que não se trata de sucesso ou fracasso. Só nós dois sabemos que o que se sente não se trata — e é em nome deste intratável que um dia nos fez estremecer que agora nos separamos. Para lá da dilaceração dos dias, dos livros, discos e filmes que nos coloriram a vida, encontramo-nos agora juntos na violência do sofrimento, na ausência um do outro como já não nos lembrávamos de ter estado em presença. É uma forma de amor inviável, que, por isso mesmo, não tem fim.”


É um livro lindo que fala sobre o amor eterno em suas mais variadas formas. Um alento para aqueles — poucos — que respeitam muito mais os sentimentos do que as convenções.

terça-feira, 31 de março de 2009

Palavras, apenas...


Quantas mil vezes somos pegos de surpresa por um texto, uma frase, uma palavra? Pois é. Pode ser uma palavra áspera, de otimismo ou de conforto. Como quando precisamos de um gás, uma propulsão, e chega alguém do nosso lado, gentilmente sussurrando palavras capazes de animar até um moribundo.

O problema é que nem sempre sabemos o quanto essas palavras são sinceras. Ou melhor, seus interlocutores. E aí não tem jeito mesmo. É apostar suas fichas cegamente. Mas vale a pena pagar pra ver, quando não confia nem mesmo nas palavras desse alguém? Quem joga palavras ao vento joga seu caráter, sua honestidade e dignidade ao vento também. Porque esse é o contrato mais fiel de um homem: sua assinatura verbalizada sob cada palavra profetizada.

Não que eu acredite que todos sejamos vermes hipócritas. E sim, todos têm seu lado Pinóquio. Mas mentir por ingenuidade é infinitamente mais perdoável que envolver várias pessoas de seu convívio numa trama de joguinhos e palavras traiçoeiras, sabendo que elas correm o sério risco de serem muito magoadas.

Que não haja dúvidas: traição também é verbal.

É fácil demais encantar pessoas por meio de frases prontas, verbetes e elogios graciosos. “Sinto saudades”; “é bom estar aqui contigo”; e o clássico “te amo!”... Coisas assim, que criam expectativas, geram empolgação, sorrisos, vontade de ouvir de novo... Mas, com o tempo, as atitudes demonstram o contrário de todas essas palavrinhas mágicas e o desfecho da peça torna-se, aos poucos, dramático.

Porém, ainda piores talvez sejam essas palavras malditas e mudas. Que nunca são ditas... morrem no silêncio mesmo antes de nascerem. Frases que talvez mudassem o curso da história e fizessem você ser compreendido, porque nem tudo está sempre bem explicado. Frases que viram pó, numa fração de segundo, desarmadas por uma frase disparada da arma alheia, tal como um “estou feliz por te ter aqui”. Malditas frases hipnotizantes que nos tomam o ar e as nossas benditas frases junto...

E o teatro torna-se um monólogo assustado, em um só tempo. Descompassado, as falas parecem embolar-se umas nas outras e nada mais faz sentido. São só palavras pequenas. Palavras, apenas. Palavras... ao vento.


𝄞 Talk tonight, by Oasis


sábado, 7 de fevereiro de 2009

Canção da Primavera, por Mário Quintana

(Para Érico Veríssimo)

Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.


Catavento enloqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.


Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até
Não mais saber-se o motivo...

Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido!
___________________________


Primavera não depende de translação, data ou incidência solar.
Primavera vem quando a gente pede pra chegar. Quando a gente abre os olhos pra ver os primeiros botões em flor, depois dos mais difíceis momentos de dor.
Não há borboleta que venha a jardim mal cuidado, nem amor que cresça de um sentimento deixado de lado.
Eu não quero um inverno inacabável. Quero do néctar das plantas mais adocicadas! E aí, então, estarei sossegada. Nada de neve no meu céu, mais. Eu quero primavera. E quero agora.

E eis que surge a primeira flor...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009


Vendo uma lua dessas, eu entendo o motivo da fascinação que muitos têm por ela. Há de estar no mundo da lua pra não achar um satelitezinho desses uma graça, não é?

E eu ainda tento capturar a beleza da coisa, mas não chega nem perto de vê-la, toda pomposa, nesse manto negro estendido. Lindo!

E ah! Essa cor âmbar não é efeito, não. Ela estava -realmente- bronzeada! :)

ps: vocês conseguem ver o coelhinho, ali? :)

domingo, 28 de dezembro de 2008

Para onde foram os ramalhetes? [uma citação]

“Quando foi a última vez que você ouviu alguém anunciar ʻestou loucamente apaixonadoʼ

sem pensar ʻespere até a manhã de quarta-feiraʼ?”

Logicamente, esse trecho não é meu, bem como o título, que foi adaptado de um livro de

Candace Bushnell. O que importa é que é uma boa introdução para o meu texto.


Conhecemos vários tipos de amor durante a vida. Amamos nossos pais, irmãos, primos,

tios, namorados, amigos...

Com cada um deles, experimentamos uma sensação diferente, mas se todos são

importantes, por que o amor romântico foi o mais desvalorizado de 

todos?

O que aconteceu com as noites agradáveis em pequenos restaurantes de comida

italiana?

Vinho tinto, velas, um caneloni maravilhoso, música ambiente e depois, quem sabe, uma

esticadinha maravilhosa que terminaria em um delicioso café da manhã cheio de frutas e

tipos de pão?

Isso pareceria ótimo para muitas pessoas, mas fica apenas na teoria.



Hoje em dia colecionamos mais casos que queremos esquecer, do que casos que

queremos lembrar.

E alguns possuem tantos casos que não teriam nem como lembrar.

O que antigamente era o auge de um relacionamento, hoje em dia se tornou algo que

muitas vezes é vazio.

Não estou falando apenas de sexo ou beijo na boca.

Estou falando de abraços, carinhos espontâneos, troca de olhares.

Há um tempo não muito distante isso costumava significar algo especial, mas atualmente

a maioria das pessoas não quer chegar nem perto de transformar essa quase realidade

em realidade.

Mas para quê fariam isso, afinal?

Com tantos artifícios divertidos por aí: garotos e garotas bonitas; álcool; música alta... há

de convir que manter-se em várias “fake relationships” parece bem mais fácil que manter

algo substancial e ter que se afastar de garotos ou garotas atraentes que estão por aí.


Não vemos mais muita gente namorando. É o namoro da atualidade. Hoje em dia existe

algo em torno de relacionamentos soltos que não conectam uma pessoa a outra que

chega a assustar.


O que eu vou dizer vai parecer piegas, mas muito disso é produto do medo. O que é

natural.

Quando se conhece alguém legal, que combina com você e que te faz rir, mesmo se a

piada não for engraçada, assusta.

O medo de perder o envolvimento todo, ou da pessoa não te ver da mesma forma que

você a vê cria milhares de complexos escrotos e infundados (ou não tão infundados :~ ),

que te freiam.

“Se você não quer que te roubem, crie suas próprias oportunidades”.

Grande conselho. Fica tão bonito falado ou escrito, mas é um grande nada quando se

trata de prática. O que me deixa bem desapontada.


Mas o pior dessa onda de insensibilidade são esses casais que estão juntos por não

verem outra alternativa.

Tenho uma amiga (x), que há um bom tempo atrás namorou um cara (y).

Passaram muito tempo juntos. Não se desgrudavam, posts fofos em fotologs eram regra

diária.

Mas x, um dia, terminou. Disse que o amor acabou.

Y ficou desolado, mas continuou amigo dela normalmente.

Estava hoje sentada com minha tia, conversando e bebendo uns drinks maravilhosos,

quando ouvi meu celular tocando... era x!

Estava “muito feliz” porque ela e y se “amavam muito” e queriam voltar.

Mas, eu me lembro muito bem dela feliz da vida por ter voltado a se “aproximar” de um

caso tórrido que tinha vivido há uns dois, três anos.

E também me lembro da tristeza dela ao descobrir que não passaria de uma aproximação

orkutiana, porque o garoto não queria repetir figurinha, se é que vocês me entendem.

Enfim, fiquei feliz por ela, mas, ao desligar, virei pra minha tia e perguntei se o amor

estava tão banalizado que era capaz de “voltar”, só por uma conveniência boba

(eufemismo para solidão?).

Será que a oportunidade de conhecer um sentimento de desejo fora de controle em

grande estilo como em “O Último Tango em Paris” estará para sempre perdida, como a

oportunidade de assistirmos a um novo filme do (falecido) Marlon Brando no cinema?

-


Pois é... que me perdoem, mas eu não anotei o autor desse texto. Ele estava impresso, guardado em meio a uns textos que eu guardo aqui, no meu home, sweet home. Acho ele legal e quis dividir. 

Sem mais.


sábado, 29 de novembro de 2008

Outra fábula da Raposa e as uvas


O Coelho e a Raposa formavam um belo casal. E, assim como em qualquer outro relacionamento social, o Coelho cometia alguns sacrifícios pela Raposa e pedia, em troca, que ela não comesse as uvas que ficavam sempre sobre a mesa. A Raposa não se pronunciava, mas dizia que não queria desapontar o amante.

Porém, o Coelho não é bobo e começou a perceber que algumas uvas estavam sumindo do cacho. Pelo bem do casal, ele decidiu nada comentar. Pensou, talvez erroneamente, que conversar sobre isso seria uma ofensa à Raposa ou, no mínimo, palavras ao vento. A Raposa já não estava ciente do que o Coelho pensava? Além do mais, o Coelho não tinha completa certeza de que a Raposa havia comido as frutinhas. Poderia ser o rouxinol, ou o texugo que rondavam sua c

asa com freqüência.


O Coelho confiou.

Foi numa noite escura, quando os dentes brancos da Raposa se revelaram sujos, que o Coelho teve a revelação: as cascas da uva se agarravam firmemente aos dentes afilados do Quadrúpede. Aquela visão causou um asco tão, mas tão grande no

 Coelho que só lhe restou virar a cara e vomitar toda a cenourada no chão. E, logo depois, pôs-se a chorar.


Enquanto a Raposa sorria, confiante e radiante, o Coelho perguntava por quê ela havia feito uma coisa dessas.

“Porque é de minha natureza...”

A Raposa justificava com seu instinto animal.

“... e porque não gosto da sua comida.”


Enfim, todas as vezes que o Coelho olhava para a Raposa, a partir desse dia, sentia um nojo, com pontadas no estômago, por lembrar das uvas entre os dentes.


quinta-feira, 30 de outubro de 2008

O que você me trouxe?

“Olá, menininha! O que escondes aí, atrás das costas? Uma flor?”


E ela sorria. Doce, meiga e fofinha de querer apertar as bochechas! Os olhinhos, azuis como o céu da manhã com cheiro de canela, eram tão sinceros que ninguém poderia crer em maldade alguma vindo desse pequeno anjo.


“Que guardas?” E inclinou a cabeça para a direita, num ímpeto de curiosidade.


A menina continuava com os dois bracinhos rechonchudos para trás, segurando algo. Queria fazer uma surpresa! Sabe como são as crianças... sempre aprontando alguma diversão!


“Com esse sorriso, eu diria que é uma generosa porção de comida. Mas também pode ser uma foto que queira me mostrar. Vamos! Revele!” Ele começou a pensar, tornando-se agradavelmente impaciente.


A bonequinha viva dançou em um só pé; ameaçou um giro... mas, continuou parada, revelando nada mais que uma expressão adorável. Que bochechas gorduchas! Que risadinhas gostosas!


“Opa! É agora!” E deu um pulinho à frente, quase subindo em cima da menina.


Ela esticou um braço, enquanto o outro continuava guardando o segredo sob sete chaves, ou cinco dedos. Levou o dedinho ao nariz do amigo, brincalhona. Riu mais um pouco enquanto se inclinava. Desequilibrou-se por um segundo e riu ainda mais, agora de si mesma. Era deliciosamente desastrada, como uma boneca de pano que não pára em pé.


“Ei, agora chega, vamos? Mostre-me o que tens!” E passou a inquietar-se.


O sorriso afinou no rostinho redondo da personificação de bondade que era a menininha. Era agora. A curiosidade do amigo finalmente seria extingüida. Enquanto uma mãozinha procurava apoio na parede ao lado, o outro braço começou a se mover lentamente... O rosto se aproximava, carregando seu sorrisinho. Até que, enquanto o pequeno esbugalhava os olhos, pronto para o surpreendente grand finale, o braço da bonequinha de pano moveu-se rápido o bastante para o passarinho não ver mais nada, muito menos voar em retirada. Numa só estocada, lá se foi a curiosidade, a vitalidade e todo o resto do bichinho. Ficou só carne, pena, queratina e ossos. Ah, sem nos esquecermos do sangue escorrendo. E o sorrisinho do anjinho que guardava alguma boa surpresa a ele...




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foto por Amanda

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Cannonball

there’s still a little bit of your taste in my mouth
there’s still a little bit of you laced with my doubt
it’s still a little hard to say what's going on

there’s still a little bit of your ghost your witness
there’s still a little bit of your face i haven't kissed
you step a little closer each day
that I can't say what's going on

stones taught me to fly
love, it taught me to lie
life, it taught me to die
so it's not hard to fall
when you float like a cannonball

there’s still a little bit of your song in my ear
there’s still a little bit of your words i long to hear
you step a little closer to me
so close that I can´t see what´s going on

[...]
so come on courage, teach me to be shy
'cos its not hard to fall,

and I don't want to scare her
it's not hard to fall
and i don't want to lose
it's not hard to grow
when you know that you just don't know.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Quando só se ouve o silêncio...


Senta aí. Hoje eu não quero saber o que ocorreu na China ou se a bolsa despencou. Danem-se todos os outros problemas do mundo. Eu quero ver a sua ferida. Eu quero sentir na pele o anzol que te fisgou, o sangue que jorrou daí. Tira essa blusa. Não quero nada entre nós dois, atrapalhando nossa sintonia. Permita o meu toque, as minhas mãos caçando cada falha na tua epiderme. Arrepia até a alma, que eu quero fazer-te sentir também.

Essas cicatrizes e feridas mal curadas por debaixo de toda essa gaze não me enganam. Deixa-me vê-las, tocá-las. Quem sabe melhorá-las...? É isso que te faz fraco, sereno, humano. É isso que te faz homem. Meu homem. Ao menos por essa noite... Aqui e agora, nessa sala fria, iluminada por um azul pouco celeste.

Pode despir-se. Não me engana mais com toda essa folhagem escondendo seu cerne. Eu pude ver num clarão, por uma fração de segundo, seu peito brilhar. Eu sei de uma fagulha, uma centelha aí dentro. É uma faísca esperando por uma ignição completa. Deixa-me acender o fósforo. Eu quero ver essa carne velha queimar e me incendiar com você. Das cinzas renasce a fênix. 

Hoje à noite, nada mais me importa. Se eu puder aliviar um décimo do que te dói, eu estarei inteiramente em paz comigo mesma.

Conta-me. Abre-te comigo. 

Eu não quero machucar-te... só quero sentir-te.